sexta-feira, 16 de março de 2012

Rimbaud

I

A gente não é sério com dezessete anos.
— Uma bela noite, longe dos chopes e do anseio
Dos cafés barulhentos de lustres soberanos
— Vamos sob as tílias, verdes do passeio.

As tílias cheiram bem nas boas noites de junho!
O ar é às vezes tão doce que fechamos os olhos;
A cidade não está longe — o vento é testemunho —
Há perfumes de vinhedo e perfumes de cerveja...

II

— Eis que percebemos um pano pequenino
Azul-escuro, ladeado por um pequeno galho,
Com uma estrelinha má, sumindo
Aos doces arrepios, branca como orvalho...

Noite de junho! Dezessete anos! Embriagados.
A seiva é champanhe e lhe sobe à cabeça...
Divagamos; sentimos um beijo nos lábios
Que palpita lá, feito um bichano...

III

O coração louco vagueia como num romance,
— Quando, na luz de um pálido lampião,
Passa uma senhorita com encantos de relance,
Na sombra do colarinho temível do seu pai...

E, já que ela lhe acha imensamente ingênuo
Enquanto deixa trotar as suas botinas,
Ela se vira, alerta com um movimento tênue...
— Nos teus lábios então morrem as cavatinas...

IV

Você está apaixonado. Tomado até o mês de agosto.
Você está apaixonado. Seus poemas a fazem rir.
Todos os seus amigos fogem, você é de mau gosto.
— E a adorada, uma noite, concedeu-lhe uma carta!...

— Esta noite... — você entra nos cafés soberanos,
Você pede limonada ou um chope cheio...
— A gente não é sério com dezessete anos
E quando tem as tílias verdes do passeio.

quinta-feira, 15 de março de 2012

pare que eu quero descer

neste ônibus
não há sossego
nem sanidade
há sim, um manequim
apenas
com meus pés despidos
sob seus belos seios

pare!
e vista o manequim de alma
e sem cabeça
- pare! pois já estamos
quase

e não suporto seu teatro

pare e
vista-se
com sua máscara tão cheia
de vazios
vista-se com suas verdades de mentiras
vista-se com suas mais mentiras
que verdades
e então vista-se com o que de mim
encontrar

neste ônibus,
há apenas um manequim
e
há também quem não entenda
a relação entre um manequim
e um ônibus
repleto de cabeças
sem almas
ou vice-versa

vista-me, e por favor
devolva-me.
se por aí
me encontrar

treze de novembro de dois mil e onze

Ela
estava certa

Eu não sei gostar
não sei ter, nem
perder
não sei me abrir
ou conversar

Eu não sei
amar.

Aliás, eu nem sei
o que é isso

E foi.
naquele Treze de novembro,
de dois mil
e 11
que eu a escrevi:
"Estás certa!
- em cada palavra dita
e doída -"

repito,
estás certa

eu
"Concordo!
- com cada palavra dita
e doída-"

(lembrando que
talvez nem isso eu saiba)

Ela,
que com flores mortas
confessou a mim
o atordoado medo
que é,
perder.

Hoje - e amanhã e depois -
poderá dormir
com a pálida certeza
de que simplesmente não há (mais)
o que,
perder